Certidão de Alforria
Tuesday April 9, 2013 às 17:43 | Arquivado em: Textos

Fico semanas sem postar e em um dia dois posts me atropelam. Que isso produção!!! Não queria postar nada hoje, porque já postei… mas sabe quando o texto simplesmente aparece e, se não for publicado, perde totalmente o sentido? Então. Esse texto tem vida própria e tem que aparecer hoje.

Bye bye love

Meu amor,

Quando você me ligou naquela tarde chuvosa, senti um gostoso calorzinho. Foi como se um raio de sol avançasse entre as nuvens fechadas da minha janela e atingisse direto meu coração, aquecendo cada milímetro de pele existente. Era delicioso, reconfortante… Uma mistura estranha de prazer e alegria, como saborear uma taça de vinho sozinha. Era engraçado, mas era assim que eu me sentia: como uma criança na manhã de natal.

Nossa conversa não foi longa. Você, como sempre, foi muito direto e foi logo ao assunto. Enquanto escutava aquelas palavras, ainda sorria. Adorava sua voz. Ela sempre me fazia viajar para um país distante onde eu podia ver claramente as expressões que fazia enquanto falava. Via seus cílios longos, seu sorriso torto e seus olhos castanhos. Naqueles momentos, sempre tive certeza de que eu realmente conseguia ver você. Era recente, mas eu te conhecia o bastante para decorar os 5 tipos diferentes de arquear a sobrancelha que você tinha: um quando me ironizava, um quando achava algo que eu havia dito absurdo mas preferia não comentar, um quando achava graça, outro para quando estava feliz e um último quando ia começar a discursar inflamado seu ponto de vista. Todos adoráveis e especiais.

E foi aí que você me disse.
A visão de seu rosto moreno voou para bem longe. Meus pés tocaram o chão. Achei que você estava brincando, então concordei. Mas aí percebi que não estava.

Sentada na minha poltrona tento reviver os últimos acontecimentos. Busco em vão por uma palavra, um suspiro, um olhar de desaprovação seu… Mas não encontro nada. Estávamos bem. Brigávamos, mas nos entendíamos. Era tudo claro e deliciosamente seguro para mim. E sabe o que é mais engraçado agora, querido? Estamos bem. Eu estou bem.

Gostaria que tivesse me feito essa ligação antes. Não antes ontem ou semana passada. Gostaria de ter tido tempo de escuta-la antes de te conhecer. Não teria desperdiçado força e coração procurando formas de te agradar. Não me arrependo de ter virado tantas noites escrevendo cartas apaixonadas. Não me arrependo de ter aberto meu coração à quem nem sequer sabia onde o seu estava. No final das contas, as cartas eram para mim e não para você. Eu me sentia feliz em fazê-lo essas pequenas surpresas. Posso estar magoada, mas estou feliz: vivi um amor lindo e intenso, ainda que no curto espaço de um dia ou dois.

E quanto às minhas lágrimas, querido, não se preocupe com elas. Você sempre se assustou com minha facilidade de chorar, mas a verdade é que eu sou minha melhor companhia. Não estou triste sozinha. Estou feliz. Meus livros, um disco de vinil na vitrola antiga do meu avô, uma boa xícara de chocolate quente e um filme gostoso me fazem feliz. Adoro a brisa e a calmaria de estar comigo mesma. De não ter me perdido em você.

Por favor, não se sinta ofendido. Você foi, é e sempre será importante. E eu espero que você seja feliz. É sincero. Mas não queira ser meu amigo, querido, está cedo demais para isso. Talvez um dia eu possa olha-lo sem a pontadinha aguda do que poderíamos ter sido mas não seremos.

Ps.: devolva meus headphones, querido. Posso ter te dado meu coração, mas os headphones é outra coisa.



3 comentários

Tags: , , ,


Pelo uso do Simancol
Tuesday às 09:18 | Arquivado em: Reflexão

É incrível como a hora de dormir é propícia para posts. Posso passar o dia inteiro pensando em um, basta colocar a cabeça no travesseiro e linhas, frases, parágrafos inteiros começam a se desenrolar.

As pessoas parecem estar cada vez mais perdidas nas regrinhas básicas de educação. Durante a entrega dos convites de formatura (quem me acompanhou no twitter, viu a saga que foi) uma das maiores raivas que passei se deu do fato das pessoas não confirmarem presença. É aquilo de você ter que imaginar quantos daquela casa vão querer ir, mandar convites e no dia aparecer uma pessoa na sua porta dizendo que vai no carro com você também (tipo, WHAT?). Imaginem meu desespero pra achar um lugar pra essa pessoa que eu nem imaginava que iria querer ir. Que eu nem lembrava que existia (sério). Óbvio, adorei ter a presença de tantas pessoas queridas, mas isso me fez refletir e o ápice dessa reflexão veio hoje. As pessoas estão esquecendo os modos. Esquecem de agradecer o presente, de enviar um cartão (sms, e-mail, sinal de fumaça que seja) de confirmando presença ou de cancelar um encontro que elas mesmas marcaram. E como se não bastasse, parece que perderam a sensibilidade para perceberem quando são um incômodo.

Lembro que aos doze ou treze anos achava muito “feio” da parte dos nossos colegas europeus serem tão frios. Era (e ainda é) o comentário clássico de qualquer brasileiro que tira os pés das terras guaranis: “Lá é lindo, mas as pessoas são muito frias”. Eu também concordava até entender o real sentido dessa frase.

Os europeus são considerados frios porque suas atitudes são mais comedidas. Por exemplo, eles não chegam gritando e falando alto na casa dos outros. São frios porque ligam antes de simplesmente tocarem a campainha e te pegarem em uma casa bagunçada, enrolada em uma toalha enquanto toma banho e escuta Selena Gomez. Percebi que, para muitas pessoas, ter uma visita chegando de surpresa é sinal de calor humano. É como se fosse uma forma bizarra de afirmar que vive em sociedade e possui muitos vínculos afetivos. Pois eu tenho algo chocante para dizer: pra mim, chegar sem ser convidado não é sinal de proximidade. É só falta de educação mesmo.

Vejam bem, não quero dizer que sou uma pessoa antipática e anti-social, mas eu gosto de sentir prazer em receber uma pessoa e não raiva. Em outras palavras, gosto de estar preparada para a visita. Gosto de ter o prazer em recebe-la em um ambiente confortável, limpo (porque convenhamos, nem sempre nossa casa está assim, uma brastemp), pensado para entretê-la. Eu sinto falta de quando as pessoas ligavam para propor uma visita e ligavam no dia combinado só para confirmar se poderiam chegar às 14h mesmo. Sinto falta de quando se policiavam a respeito do que diziam ao invés de saírem soltando uma série de gafes e te deixando constrangida (acredite, isso está mais comum entre quem não entrou nem no primeiro copo de chopp do que entre os pinguços da minha rua). É até meio desagradável.

Lembro de uma vez estar na faculdade conversando com um grupo sobre um trabalho e chegar uma “colega” gritando “Rebecaaaa to te seguindo no twitter. Como você twitta! Aposto que quando está fazendo sexo deve postar “Estou aqui tranzando’”. Acreditem, aconteceu. Eu fiquei tão passada com a falta de noção da garota que não comentei nada, apenas continuei conversando sobre o trabalho. E o pior, ela prosseguiu, reafirmando o comentário até que eu virasse para ela e arqueasse uma das sobrancelhas, como quem diz “Se toca, você está sendo inconveniente”.

As pessoas perderam a capacidade de perceberem que estão incomodando. O simancol parece ser cada vez menos usado, e como consequência, menos produzido pelas indústrias. Todos estão esquecendo.

Não foi minha intenção ofender ninguém nem me colocar como a rainha dos bons modos. Cometo muitas gafes, mas pelo menos eu estou tentando. Gostaria que todo mundo tentasse também… Ia ser bem melhor para todos nós.



Comentários

Tags: , , ,